Uma “etérea” genial em Istambul

As viagens se prestam a muitas coisas. E certas lembranças merecem ser registradas, de uma forma ou de outra. É o caso dessa breve crônica.

No primeiro semestre de 2010, morei em Roma num estagio de estudos. Estava com minha esposa num apartamento bastante aconchegante no início da famosa Via Salaria e lá recebemos minha cunhada, de quem gosto muito, mas certamente menos do que o amor que existe entre as duas irmãs. Minha cunhada é uma pessoa encantadora e de acordo com minhas filhas há um aspecto que a caracteriza: é uma pessoa “meio etérea”, capaz de ficar conversando horas a fio sobre um ou vários temas, em divagações sem fim, suspensas apenas pelo cansaço dos dias. Mencionar isso terá sua importância para a história que vem a seguir.   

Num final de semana emendado com a Sexta-Feira Santa compramos as passagens para voarmos até Istambul. Havia um interesse imenso de conhecermos um pouco dos confins da Europa. Além de todas as razões históricas e culturais existentes, as duas irmãs são de origem sírio-libanesa, ou seja, “turca”, como se tornou comum dizer no Brasil, embora saibamos se tratar de um erro que se generalizou por conta do momento da grande imigração sírio-libanesa para o Brasil, quando sírios e libaneses encontravam-se sob o domínio da Turquia e entravam aqui com o passaporte turco.

Passear e conhecer os lugares mais significativos da capital turca foi muito agradável e instrutivo para nós, pessoas da área de humanidades e línguas. Mas um passeio de barco pelo Bósforo, o canal que separa a Europa da Ásia, era imperdível. Compramos os bilhetes pouco antes de embarcar e lá fomos nós.

Pegamos o barco ao lado da ponte que liga o centro de Istambul ao bairro da Torre Gálata. A viagem se inicia nesse ponto e vai até o extremo limite do Bósforo, de onde não se pode ir mais além. O barco vagueia caprichosamente entre a Europa e a Ásia, em paradas portuárias sucessivas. Ia cheio de turistas e locais que desembarcavam conforme chegavam ao seu destino. Os vendedores de chá eram os transeuntes internos do barco mais notáveis. No lado de fora, as gaivotas seguiam a embarcação à espera de algum alimento atirado ao mar, numa perseguição incessante. Em cada um dos lados dos morros se viam as famosas mansões do Bósforo, muitas delas bastante refinadas, evidenciando claros sinais da riqueza dos turcos e de muitos estrangeiros. Efetivamente, Istambul e o Bósforo compõem um conjunto que se traduz numa beleza apenas comparável ao Rio de Janeiro … combinando cidade, natureza, mar e montanha.

Fizemos, no trajeto, uma parada obrigatória, de acordo com a indicação de amigos valencianos. Tratava-se de baixar do barco na penúltima parada para tomar o famoso iogurte produzido na região. Isso atrasaria a nossa chegada ao ponto limite do Bósforo. Mas valeu a pena. Em seguida, retomamos a viagem e rapidamente chegamos a um lugar com vários restaurantes, onde se comia pescados retirados há pouco do mar. Além dessa iguaria, algumas garrafas de un bell’bianco, para combinar com a belíssima paisagem.

Após o almoço, mais para o final do dia, pegamos o barco para retornarmos a Istambul. O itinerário de volta era o mesmo: um ziguezague tocando a Europa e a Ásia, com as incansáveis gaivotas novamente à espreita acompanhando o barco.

Tínhamos que descer no ponto final. Na penúltima parada as pessoas desembarcaram normalmente. Estávamos, eu e minha esposa, sentados dentro do barco, para seguirmos até a etapa final. Nesse momento, os encarregados fecharam com cordas o acesso ao barco, como normalmente faziam.

Foi quando vimos a minha cunhada se jogar da plataforma até os braços de um turista americano, num movimento arriscadíssimo. Por sorte, o americano era forte e ágil, e a recolocou para dentro do barco. Eu, de dentro do barco, via a cena estatelado, minha esposa embranqueceu. Acompanhamos, paralisados, minha cunhada se aproximar e sentar ao nosso lado. Ela tentou nos explicar: “eu vi toda aquela gente descer e imaginei que fosse o final da viagem. Então, segui com eles; quando vi que vocês não estavam, voltei; mas aí, eles já tinham fechado tudo. Aquele senhor me estendeu os braços e eu pulei. Foi só isso”. Respiramos fundo, todos!

Depois disso fiquei pensando. Observei que quando os minaretes das mesquitas chamavam para a oração (e isso ocorre várias vezes ao dia), minha cunhada paralisava e em um momento chegou a brincar: “me segura senão eu vou lá”. Estranhei, logo ela que não professa nenhuma religião! Dizem que, quando mais jovem, ela deixou o carro ligado na frente da casa e foi tomar banho (as cidades não eram tão inseguras como hoje). Um vizinho bateu e perguntou à mãe se ela iria sair novamente e informou que o carro estava ligado fazia já algum tempo. A mãe agradeceu, desligou o carro e o fechou, voltando em seguida para dentro da casa.

Coisas de uma “etérea” genial em Istambul. Acho que minhas filhas têm razão.

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