Qual a identidade do Cidadania?

É preciso partir de uma premissa realista: há partidos que morrem, que se desqualificam, que se renovam, que se refundam e que nascem. Com raras exceções, no campo das democracias, quase todos os partidos comunistas morreram e isso ocorreu porque sua função histórica se esgotou. Assim, por exemplo, no Brasil e na Itália, o PCB e o PCI morreram. Temos exemplos entre nós de partidos que se desqualificaram, como o PTB e o MDB, e mais recentemente o PT. O Partido Democrático italiano e o Partido Liberal canadense, imersos nas incertezas da democracia e do jogo eleitoral, se renovam e se refundam. O Podemos, na Espanha, e o En Marche, na França, são novas criações que derivam das lutas efetivamente populares nos seus países por renovação da política.

O que ocorreu para o PPS mudar sua denominação para Cidadania? Há certamente inúmeras respostas, mas está claro que o PPS (sucedâneo do PCB) não havia conseguido, na sua curta trajetória, construir os pilares que estabeleceriam uma nova função histórica para o partido. Tardou demasiado para assumir uma postura claramente reformista, enquanto ator político. Aparentemente assumiu a versão de que a “revolução tecnológica”, que varre o mundo, não necessitaria mais nem de política e menos ainda de atores políticos. A “revolução” em curso se bastaria e varreria tudo o que representou a política e a esquerda nos últimos dois séculos. O resultado não está sendo bem esse. O Brasil está submerso por uma esquerda atrasada e sem futuro, ao mesmo tempo em que emerge o espectro do iliberalismo, com força jamais vista, ganha a contenda eleitoral de 2018 e polariza mais ainda o ambiente político nacional e internacional. O iliberalismo expresso por Bolsonaro tem laços internacionais e como expressão da direita institui uma lógica extremista buscando deslegitimar a lógica de coesão e consenso que o país veio trilhando desde a redemocratização.

Reunião de dirigentes do PPS votando pela mudança do nome do partido

Diante dessa forte irrupção da política de direita, pode uma mudança como essa que o PPS assumiu, de passar a ser o Cidadania, garantir-lhe uma nova função histórica, uma nova identidade, reconhecível pelas outras forças políticas e pela sociedade? Em outros termos, o novo nome o PPS resulta de uma renovação, é uma refundação ou trata-se de algo realmente novo diante da conjuntura dramática que vivemos em termos não só nacionais? Como se reconhece generalizadamente, a questão não é a mudança de nome e tampouco se resume à dimensão eleitoral, ainda que isso seja importante e decisivo.

Deve-se saldar o espírito de abertura a novas sensibilidades políticas que emergiu nesse processo, o que gerou novos ares e novas expectativas diante da mudança dos nossos costumes políticos. O problema do contato e da inteiração de culturas políticas diferenciadas passou a ser colocado no âmbito do partido. Abriu-se um espaço de intercambio entre os pós-comunistas, os socialdemocratas, os nacionalistas, os liberal-democráticos, os liberais, e assim por diante. Se essa inteiração for vivida com pluralismo, liberdade, realismo e espirito de futuro, essa nova situação poderá dar um novo destino à mudança de denominação proposta pelo PPS.

Não deixa de ser importante assinalar que, do ponto de vista da história do PPS, trata-se de superar a situação de um partido pós-comunista e ingressar definitivamente no sistema político com uma nova identidade. Como pós-comunista, o PPS trouxe para dentro de si as características marcantes do pecebismo e, talvez por isso, tardou muito a encontrar uma nova identidade. Demorou muito em admitir que o seu ideário anterior, o comunismo, havia fracassado e não apenas havia sido derrotado (em certo sentido, a ideia de derrota ainda prevalece, uma vez que ainda se fala a partir da trajetória vivida, ou seja, do momento comunista ainda incrustrado no PPS). Como dissemos acima, tardou muito também a se perceber como partido reformista, sem ambiguidades, no sentido de que as reformas devem compor uma perspectiva de futuro e de destino e não uma etapa de um processo revolucionário ou transformador, como pensavam antigamente os comunistas. A perspectiva reformista também é a única possibilidade de recompor um horizonte político democrático diante das transformações profundas dos tempos que vivemos. Imaginar que à revolução tecnocientífica corresponderá uma “ruptura” social e política é voltar ao tempo das utopias dirigindo a política.

Reunião de dirigentes do PPS na aprovação do novo nome do partido: Cidadania

Hoje podemos avaliar que a fase pós-comunista do PPS se fixou como uma inércia mental que o dificultou a ir além, malgrado alguns esforços momentâneos e isolados. Agora é preciso superar essa inércia e com ela criar um novo partido político, com novo nome, novo programa, novos métodos, novas aberturas, nova identidade. Instituir uma nova formação partidária com os mesmos vícios do antigo pecebismo, como a eternização das direções e o controle férreo da sucessão dos quadros dirigentes, não terá nenhuma valia. Além disso, a sociedade pede uma identificação entre proposições novas e lideranças jovens. O exemplo espanhol na recente eleição vencida pelo PSOE é eloquente: todos os líderes que disputaram o pleito nacional têm ao redor de 40 anos. Outra observação sobre a eleição espanhola é o fato de que a palavra “partido” não foi impeditiva para a grande vitória do PSOE.

Ao nosso ver, não se deve perder aqui a orientação que está identificada na marca da “esquerda democrática”, embora do ponto de vista programático poderá haver uma maior abertura a elementos do que se pode chamar de “esquerda liberal” ou mesmo um “centro-esquerda liberal-democrático”, como vem ocorrendo na França, na Inglaterra e no Chile. Entretanto, em termos de ação política, o campo do Cidadania não deve se fechar na sua identidade. A conjuntura é por demais dramática e extremada que será necessário pensar com generosidade e espirito aberto os passos a serem dados, ampliando o leque de possíveis alianças no sentido de buscar superar a lógica extremista que se impôs ao país.

Os termos deverão ser claros: um novo partido, como força política cosmopolita e reformista que possa, além de governar o país, ser capaz propor uma visão geral e uma ideia do futuro diante de um mundo que muda de maneira vertiginosa e profunda. Que seja capaz de responder às necessidades e também aos desejos de todos aqueles que querem trilhar esse caminho carregando consigo suas legítimas preocupações, anseios e ambições.

Devemos partir claramente de uma verdade insofismável: o cenário global é complexo e desafiador, assim como a revolução tecnológica em curso constitui-se numa grande oportunidade, mas não elimina a política. Contudo, a sociedade em seu conjunto e o Estado brasileiro, em especial, deve estar equipado para enfrentar os problemas que também derivam dessa grande transformação. Esse novo partido democrático deve propor medidas de fortalecimento da nossa economia para que o país volte a crescer, com qualidade e sustentabilidade, e a ser visto como um player importante no mundo, libertando suas energias e seu enorme potencial. O Brasil tem todas as credenciais para proporcionar aos seus cidadãos os meios para uma vida digna e as oportunidades para a realização de suas ambições, como indivíduos e como uma comunidade que busca reafirmar suas identidades no momento em que irá completar 200 anos de existência como país independente.

Roberto Freire foi senador, deputado constituinte pelo PCB, presidente do PPS e atualmente é o presidente do Cidadania

É, certamente, uma batalha dramática e exigente diante de todos os desafios que temos pela frente, cujo inimigo maior passou a ser as posturas insanamente iliberais e reacionárias do atual governo de Jair Bolsonaro. Por outro lado, ainda estão presentes na conjuntura política as promessas, imprudentes e perigosas, que comprometem os horizontes fiscais da República além de escamotearem, com políticas econômicas dignas de desenhos autárquicos do passado, os equívocos trágicos que a história, mesmo a mais recente, nos têm ensinado.

O Cidadania tem que se colocar a campo com a perspectiva de resgate da política e de abertura a novas subjetividades e culturas políticas. Não há razão para se partir do zero, mas também não há razão para imaginarmos que o novo cairá do céu ou derivará de qualquer retórica mercadológica ou marqueteira. Também não há razão para deixar de acreditar que os brasileiros tenham construído, mesmo que contraditoriamente, um país cheio de vitalidade e que, transformado, deverá ser um excelente lugar para se viver. É preciso extrair do esforço democrático de luta dos brasileiros, tal como se fez na luta contra o autoritarismo, os fundamentos de um amplo programa de reformas que deverá, sem as falsas promessas e ilusões fáceis da demagogia e da antipolítica, transformar o país. É hora de nos atualizarmos ao mundo e vivermos com sinceridade os desafios do futuro. Não surgirá efetivamente nada de novo e positivo nessa quadra se nossos propósitos não forem largos e claros visando uma atualização verdadeira e realista. Trata-se, desta forma, de uma oportunidade histórica que não pode ser vivida com oportunismo, conservadorismo ou mais um “transformismo”.

Não surgirá nada de novo se nossos propósitos não visarem a uma atualização verdadeira e realista. As ideias-chave para tanto são a valorização do trabalho, da ética e da República, estímulo à inovação e ao crescimento econômico, visão social consonante com o mundo em transformação, democracia e novo reformismo. Tudo depende de cada um e de todos nós, de um pequeno partido e de movimentos renovadores da política formados por pessoas que devem, como o conjunto da população, estarem no centro das nossas preocupações e dos nossos horizontes.

(Publicado na revista Política democrática on-line, n. 7, maio de 2019, p. 18-21)

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    Mais importante que o partido cidadania é o movimento ecológico, de cidadania, da não violência ou da cultura da vida…este é o rumo.

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