A noite em que a bola branca rolou

Os mais velhos sabem que, no passado, em qualquer cidade do país, a meninada que gostava de “jogar bola” fazia de tudo para isso. Ocupava terrenos baldios nas periferias das cidades, carpia o mato e montava campos de futebol, de variados tamanhos, quase nenhum com os equipamentos próprios do futebol, como traves, bandeirinhas de escanteio, etc, mas com improvisações diversas que cumpriam esse papel. Era o “terrão”, onde se jogava preferencialmente de pés descalços, correndo todos os riscos. O número dos jogadores em cada rachão era determinado proporcionalmente pelo tamanho do campo e algum bom senso. Era uma alegria contagiante reunir os amigos do bairro para fazer isso. Carpir um terreno, ocupá-lo, organizar as “peladas” e os “jogos contra” outros bairros; tudo isso era conquistar algo, tornar-se um organizador, compartilhar um “mandato”.

Era algum ano de meados da década de 1960 em uma cidade média do interior do Estado de São Paulo que começava a receber os sinais regulares dos canais de TV. Neles se podia ver, durante a semana, o vídeo-tape (VT) das principais partidas do campeonato paulista e, nos finais de semana, às vezes ao vivo, o campeonato carioca.

A novidade era, porém, maior do que isso e a imaginação da meninada voava ao ver os jogos de futebol nas telas cinzas, com muitos chuviscos, dos aparelhos de TV recém adquiridos nos lares das classes médias baixas das cidades paulistas. Nesta época as pessoas iam nas casas das outras para ver TV, fosse uma novela, um programa de domingo ou um jogo de futebol. 

Em minha memória, um dos momentos mais inebriantes era ver os jogos noturnos. Além da iluminação artificial – que não existia nem mesmo no estádio municipal da cidade –, o que inspirava a imaginação dos meninos era ver uma bola branca, sempre brilhante, rolando diante dos pés dos craques renomados e louvados como grandes ídolos.

Queríamos fazer igual, ter a mesma sensação de jogar uma partida noturna, com luz artificial, bola branca, mesmo que fosse naquele retângulo irregular que era o campinho que ficava em frente da minha casa, a duas quadras do cemitério que, como se sabe, ficava nos arrabaldes das cidades. O campinho ficava numa esquina e bem no bico dela havia um poste de madeira, relativamente retorcido, com um ponto de luz lá no alto, daqueles que tinha uma espécie de prato invertido, pintado de branco fosco, para amplificar a luminosidade.

Tal ponto de luz conseguia iluminar apenas uma parte do campinho. Para um jogo de futebol, era uma parte da solução, mas o problema continuava: como iríamos iluminar todo o campinho para jogarmos à noite. Parecia um problema insolúvel e deveríamos esquecer tudo isso e nos contentar mesmo com a bola de couro, de capotão (como se dizia à época), de cor marrom e com as contendas sob sol escaldante, até o final da tarde.

Mas alguém se lembrou do cemitério. E também que a novas latas de óleo de cozinha eram espelhadas por dentro. Ambas lembranças permitiriam viabilizar a única partida noturna que joguei naquele campinho. A ideia foi a de juntar toda a molecada do bairro e pedir em todas as casas as latas de óleo de cozinha que não tinham mais utilidade. Os mais velhos devem se recordar que era recente o uso dessas latas. O óleo era, em geral, comprado em garrafas nos empórios da cidade. As latas eram um sinal de status, a indicar que a família estava ficando mais moderna no seu consumo. Como elas se generalizavam no curso da modernização daqueles anos, não seria difícil obter os recipientes vazios. A partir dai seria preciso cortá-las para que pudessem, abertas em uma das suas laterais, abrigar algum ponto de luz. O objetivo era iluminar metade do campinho que ficava às escuras. Mas como obter fontes de luz?

O dono da ideia já tinha a solução. O cemitério estava há apenas duas quadras. A operação era simples: pular o muro e correr pelos túmulos pegando restos de tocos de vela que as famílias ali deixavam para seus entes queridos. Não era uma coisa correta, sabíamos. Mas era para uma boa causa. E como convencer meninos loucos por futebol a não cometer esse erro? Como diz um amigo meu, “é melhor errar nessa idade”.

E assim foi feito. Tínhamos certeza que iria dar certo. Foram algumas semanas de preparação e trabalho, com uma logística (não se usava essa expressão) perfeita; essencial, por suposto, foi contar com alguém para pintar de branco uma bola de capotão. A confiança era tanta que marcamos um jogo contra outro bairro para a noite em que tudo estivesse pronto. 

Naquela noite juntamos todos os meninos e meninas do bairro. Até alguns adultos acolheram ao chamado. E todos se postaram na lateral externa do meio retângulo escuro do campinho, segurando as latas de óleo abertas, com velas dentro, esperando o momento de acendê-las. Era uma visão esplendida, nunca podíamos imaginar que conseguiríamos mobilizar tanta gente e que todos revelassem confiança no sucesso da empreitada.

Com os times em campo, sem uniforme mesmo, um lado com camiseta branca e outo sem camiseta, foi dada a ordem para se acender as velas. Gradativamente a luminosidade foi se firmando e percebemos que, sim, era possível “jogar bola” à noite naquele campinho daquela cidade quente do interior paulista. 

Todos se comportaram com eficiência dentro e fora de campo, cumprindo suas funções. Uma alegria sincera rondava o ar e todos reconheciam que, mesmo meninos, soubemos fazer algo que poderia ser reconhecido como glorioso. As velas resistiram até o final do jogo e depois recolhemos as latas de óleo do terreno, mesmo cansados.

Não me recordo do placar do jogo. Para mim isso não tinha muita importância. Sempre amei jogar futebol e aquela foi uma noite de extraordinária alegria, digna de boas recordações. Não é difícil reconhecer nele a possibilidade de experiências fascinantes, maiores do que apenas correr atrás de uma bola.

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    Fantastico! Que lembrança, que emoÇão!! Esse tipo de histÓria É A prova de qUe vivemos 🙂

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    Muito bom, parece que voltamos no tempo e fizemos parte daquele jogo!

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