A narrativa da liberdade venceu

O golpe militar de 1964 realizado há 55 anos alterou a história do país e os brasileiros viveram 20 anos sob um regime autoritário. Depois de 1968, com o AI5, ele quase se tornou fascista. Tanto quanto possível houve oposição a esse regime, antes e depois de 1968. Hoje, o presidente Bolsonaro quer celebrar esse regime e seus apoiadores falam em uma “verdadeira narrativa” sobre o que aconteceu a partir de 1964. O que vem a seguir é apenas uma “memória” que registra um capítulo, em micro, do que foi aquele regime.

Eu cheguei a São Paulo no final e 1970 e ingressei no ano seguinte numa das escolas estaduais mais importantes na Zona Leste: O IEE Nossa Senhora da Penha. A escola havia sido palco de manifestações secundaristas em 1968 e, por essa razão, estava sob intervenção militar. A sua direção foi substituída e estava a cargo de um Capitão do Exército. Infelizmente não me recordo mais o nome dele.

Já em 1970, mesmo sob intervenção, os alunos conseguiram reabrir o Grêmio Estudantil VI de Setembro. Uma das iniciativas dos estudantes que recriaram o Grêmio foi organizar um grupo de teatro. Na periferia da cidade, a escola era excepcional por vários aspectos, dentre os quais se destacava um teatro para 400 espectadores e uma piscina de tamanho médio, infelizmente já desativada.

O grupo de teatro que se formou escolheu uma peça para ensaiar e se apresentar ao restante da escola. Tratava-se de “Somos todos do Jardim da Infância” de Domingos de Oliveira, falecido recentemente. Posteriormente, a Rede Globo faria um especial com a peça, ainda em preto e branco. O texto tratava de um grupo de jovens e suas experiências pessoais e intelectuais no momento em que eles terminavam o colégio e estudavam para passar no vestibular. Como não poderia ser diferente, aquela situação fazia parte do universo individual e das expectativas daqueles jovens da Penha de França, como também era conhecido o bairro. Começamos a ensaiar, quando veio a noticia. Depois de ler o texto, o Capitão-Diretor vetou a apresentação da peça. Alegação: havia cenas de insinuação sexual entre alguns dos personagens.

A decepção foi enorme. Mas não houve desânimo, como era típico da idade. Tratava-se de buscar um novo texto. Por coincidência (e algum “arranjo”), caiu nas mãos do grupo mais aguerrido e dedicado uma peça bastante singela: “O julgamento de Peter Zenger”, de cujo autor não me recordo mais. Pois bem, o texto se reportava ao processo de luta de um jornalista nas antigas colônias inglesas na América. Fazia parte da luta pela liberdade de expressão no processo de Independência dos EUA. No enredo, o jovem jornalista era absolvido, em meio à pressão popular contra a Metrópole e vivas à liberdade. O público da escola, com alunos, amigos, funcionários, pais e, etc., lotou o teatro nas apresentações que foram feitas. Sim. Porque o Capitão-Diretor – e até hoje não se sabe o motivo – aprovou a apresentação de “O julgamento de Peter Zenger”. Foge-me à memória a presença do Capitão-Diretor em meio à plateia.

Foi uma reviravolta inesperada. Aqueles jovens da periferia de São Paulo, em 1971, haviam sido impedidos de encenar uma peça que tinha tudo a ver com a vida deles. Foram barrados por moralismo puro e simples. Mas, o fato é que o “distanciamento” (um efeito teatral brechtniano) pode garantir à montagem da peça aprovada a sensação de que a luta pela liberdade não era válida apenas naquele momento histórico. Fazia parte da realidade brasileira.

O Capitão-Diretor levou o troco, por puro reacionarismo moral. Parece que depois de 55 anos essa postura sinistra é retomada, evidenciando um anacronismo insuportável. Melhor que nossas liberdades estejam ainda garantidas para que possamos dizer: essas e outras aberrações (mais severas, inclusive) não devem mais existir! Não há o que celebrar no próximo 31 de março. A liberdade venceu e com ela a democracia. Continuemos a lutar por elas. Essa a “verdadeira narrativa”!

Alunos do IEE Nossa Senhora da Penha, década de 1970

(Publicado na revista Política democrática on-line, n. 6, abril de 2019, p.12-13)

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