A “hora presente” segundo Werneck Vianna

Esse espaço de “Comentários” aqui do Blog foi criado precisamente para postarmos intervenções diversas, como entrevistas de amigos, escritos de última hora ou coisas parecidas. Publicamos neste post uma síntese da entrevista concedida por Luiz Werneck Vianna ao site IHU-On-line, depois da “soltura” de Lula. Além de ser muito interessante, joga luz na perspectiva política de adensarmos proposições para a construção e o fortalecimento do centro político na atual conjuntura brasileira.

Werneck Vianna começa respondendo sobre a “soltura” de Lula e qual o impacto que ela pode ter:

W.V. Igual, ele não poderá ser, porque passou por uma experiência traumática com a solidão da prisão. Embora tenha sido muito visitado, era uma situação de limitação de liberdade severa. Isso deve ter feito ele refletir. Primeiro de tudo, ele sai em busca do ativo dele: as primeiras manifestações dele foram todas no sentido de recuperar a militância para uma ação política. A militância está muito dispersa, mas parece que nisso ele teve algum êxito. O que não creio é que, embora ele tenha feito uma deriva à esquerda forte nos pronunciamentos, especialmente no segundo em São Bernardo, ele vá por essa linha. Penso que no momento ele está à procura de preservar o seu ativo que está no PT e nos aliados à esquerda que o PT fez ao longo dos anos: PCdoBPSOL, e a novidade do Partido Comunista Operário – PCO, que é uma novidade mais anedótica do que qualquer outra coisa, porque o partido não representa nem os operários nem os comunistas. Mas não creio que ele vá persistir nesta linha de radicalização à esquerda. Agora, a polarização do país não vem dele. Ela nasce com o governo Bolsonaro, que é um governo que nasce com a intensão de mudar o país de “cabo a rabo”, as suas histórias e suas tradições. Neste sentido, ele polarizou com o país tal como o conhecemos e com a pretensão de erradicar pela raiz os fundamentos que até então inspiraram a nossa formação.

IHU On-Line – No último final de semana, ocorreram manifestações nas ruas contra e pró Lula. A polarização e a radicalização do último pleito eleitoral tendem a aumentar a partir de agora ou o cenário tende a ser diferente?

W.V. O que já ocorreu é que o projeto Bolsonaro de mudança radical do país encontrou uma oposição eloquente, a do Lula. Isso certamente vai elevar a temperatura política do país; já está elevando.

IHU On-Line – Após a soltura do ex-presidente Lula, o presidente Bolsonaro determinou que seus ministros não se pronunciassem sobre a decisão do STF e ele próprio declarou que não vai rebater as declarações do ex-presidente Lula, mas já fez vários comentários em resposta às declarações do ex-presidente. Como o presidente e a ala bolsonarista tendem a lidar com a presença de Lula no cenário político?

W.V. Tem coisas que são enigmáticas. Qual é o comportamento das Forças Armadas em relação a tudo isso? Como eles estão observando esse quadro? Porque no limite está posta a volta de um regime militar do tipo AI-5, como já foi preconizado por fontes palacianas e pelo filho do presidente da República. Se isso tem passagem ou não, seria uma aventura dos infernos, porque o Brasil não é mais o país de 64. O país mudou muito para o bem e para o mal. Esse enigma vamos ter que resolver nos processos. Agora, não convém provocar a resolução de uma maneira que seja desastrosa para o país. O que penso é que apareceu uma oportunidade nova para o centro político.

IHU On-Line – Em que sentido?

W.V. Um centro liberal e progressista, conforme está se dizendo aí. Apareceu uma oportunidade para este lugar que estava vazio e passa por políticos, personalidades e movimentos sociais que o suportem, que o levem à frente.

IHU On-Line – Quem pode assumir este lugar?

W.V. A personificação disso está complicada, mas o lugar apareceu; alguém vai ocupá-lo. As oportunidades estão aí e é evidente que não sou eu quem está dizendo isso de um lugar obscuro da academia brasileira; isso está presente inclusive nos editoriais dos grandes jornais do dia de hoje [12-11-2019]. Não interessa ao país uma conflagração, especialmente uma conflagração que não tem maiores propósitos. Vamos alinhar o país à política externa americana do Donald Trump? Será que ele ganha as eleições? Será que ele não será objeto de um impeachment? E mais: o caso do Chile deveria ser exemplar de como a política do ministro Guedes levou a um levante popular no Chile pelo aumento da passagem do metrô, de tal forma que a as tensões e os conflitos se tornaram insuportáveis. O presidente [SebastiánPiñera, apesar de todos os recursos que tem promovido, inclusive a admissão de uma nova Constituição, vai conseguir estar à frente do governo até o final do seu mandato? Esse caminho ensina que a política à la Chicago Boys, que foi levada a cabo no Chile, apresenta frutos muito venenosos a médio e longo prazo. Essa leitura está sendo feita. Há outras possibilidades de cuidar do desenvolvimento capitalista do país com as instituições políticas funcionando, com a valorização da democracia política, e com políticas sociais inclusivas. Não há incompatibilidade entre políticas sociais inclusivas e o regime capitalista. Depende de que regime capitalista estamos falando. Se for dominação autocrática, é uma coisa, tal como ocorreu no Chile de [AugustoPinochet. A partir de uma convivência democrática, é outra coisa, são outras possibilidades de convivência, de educação dos conflitos e de solução e de admissão dos conflitos, da legitimidade deles.

Paulo Guedes, ministro da Economia do Governo Bolsonaro, se inspira no ditador Augusto Pinochet

IHU On-Line – Como o senhor está analisando a crise na Bolívia, as denúncias de fraude no processo eleitoral pela Organização dos Estados Americanos – OEA e a própria renúncia do ex-presidente Evo Morales e várias autoridades do país?

W.V. Isso incendeia a América Latina; não de maneira catastrófica, mas são focos de incêndios que mostram caminhos a não seguir, caminhos perigosos. Evo Morales, apesar de ter feito um governo interessante sobre vários aspectos, econômico e social, se perdeu na política. É um erro a insistência de permanecer no poder. Ele não pensou e não trabalhou uma possibilidade de transferir seu legado para um sucessor. O sucessor dele era ele mesmo. Até quando? Isso enfureceu a oposição e deu recursos políticos à oposição. E como a insatisfação sempre está presente em qualquer sociedade, deu esse resultado negativo na Bolívia, o qual não sabemos onde vai parar. Imagino que os conflitos na Bolívia vão se intensificar e teremos lá um governo militar, como manda a tradição boliviana. É este o caminho? O da intervenção militar por toda parte? Aqui temos uma semente disso, com esses acenos à volta do regime do AI-5. A sociedade não quer, mas o filho do presidente acenou com essa possibilidade de maneira clara. Este governo que aí está nasce vocacionado para a polarização com a história do país; ele recusa a história do país, a tradição da política externa do país, recusa as formas de negociação que fizeram este país ser o que é. É um governo que só admite a sua vontade como legitima. Não tem um ano de governo e é evidente que a reação a isso é forte. Nem mesmo um Congresso como este, eleito da maneira como foi, resiste. Rodrigo Maia não tem nada que diga que é um parlamentar da cepa de um Ulysses Guimarães, mas está sendo obrigado a, pelas circunstâncias, robustecer as suas convicções democráticas. Não conheço as convicções mais profundas do presidente da Câmara dos Deputados, mas o fato é que ele vem respondendo de maneira democrática, assim como o presidente do Senado, a essas insinuações malévolas de uma volta ao regime autocrático. Eles estão defendendo a política. Aliás, o que nos cabe defender nesta hora é a política, o processo eleitoral, os partidos, mesmos os “partidecos” que estão aí, porque eles têm uma função, um papel; pode ser que alguns deles se convertam em partidos verdadeiros. É preciso provocar a ressurreição da política entre nós; o governo Bolsonaro tem se aplicado em eliminar a política e criar um governo autocrático e tecnocrático, com soluções tecnocráticas para todos os problemas. O projeto dele implica em que? Remoção das populações indígenaserradicação da questão indígena do Brasilmineração da Amazônia, destruição do meio ambiente em nome de avanços capitalistas irrisórios, de outro tempo, de outra fase do processo capitalista, de uma fase já superada. Estamos aplicados no petróleo na era da energia solar, de aproveitamento das marés, dos ventos, aplicados na mineração, na atividade extrativa que não vai gerar riqueza para a sociedade, mas apenas para grupos. Polarizar, de verdade, é o governo Bolsonaro quem faz, primeiro com a Constituição, que ele não aceita; aceita contingencialmente, obrigado pelas contingências. Ele jurou a Constituição sem acreditar nela. O mesmo acontece com o ministro Guedes: o que ele tem na cabeça é converter o Brasil, em grande parte, livre para a predação capitalista do país. A sociedade não vai suportar isso. Ela não está suportando. A meu ver, nós temos que fugir da polarização, voltar às nossas tradições, defender a nossa Carta, defender os princípios fundantes do nosso país, e não entrar na aventura da estigmatização da história do país. Converter o país numa América, agora, depois de 500 anos de outra história, numa América fordista, é um projeto que não tem como dar certo. De outro lado, a polarização política e eleitoral deve ser incrementada com a volta do Lula à cena política, que também tem um projeto que não passou, que foi derrotado com Dilma. Precisamos de uma alternativa diversa. Onde ela se encontra? Por ora, ela só existe no mundo quântico, mas é pegar ou largar, porque se os setores responsáveis não pegarem isso, vamos ladeira abaixo.

IHU On-Line – Então, nem Lula nem Bolsonaro. Temos que buscar uma alternativa?

W. V.  Isso. Mas vai levar tempo. Estamos diante de um quadro em que se torna necessário a intervenção de um personagem capaz de dialogar com as forças novas que surgiram no país e com a história do Brasil, que seja capaz de criar um projeto de crescimento econômico e de inclusão social. A inclusão social é o tema dominante no mundo hoje e será cada vez mais.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum ponto?

W.V. Diria que precisamos olhar para o mundo, para o exterior, para o que acontece na Europa, na Ásia, na África e ver para onde a balança está pendendo, quais são os lados que estão se impondo na circunstância atual; são lados democratizantes e democratizadores.O tema da inclusão social é incontornável no mundo de hoje. O capitalismo, da maneira como é pensado, por essa modelagem dos Chicago Boys, não dá conta disso. Dá conta da acumulação de riqueza capitalista. O capitalismo precisa de uma sociedade para existir e na sua concepção vitoriana, a sociedade é destruída e com isso o capitalismo vai junto. O que vai surgir no Chile agora é a grande questão para a qual temos que atentar. Que Constituição vai ser aquela que surgirá daqueles conflitos que agora se manifestam? Eu imagino que uma Constituição diversa. Vai surgir uma Constituição inclusiva, que privilegie a saúde, a educação, a participação, vai surgir uma institucionalidade abrangente. Nós temos uma institucionalidade abrangente, que é a da Carta de 88. Ela é perfeita? Não, não é, mas vem sendo aperfeiçoada e garimpada no bom sentido, eliminando estorvos, penduricalhos corporativos e isso deve continuar a ser feito, mas a estrutura dela responde à natureza do nosso tempo, num mundo e numa sociedade. Eu diria que nós temos que favorecer a aparição desse centro político capaz de conversar com o país, de traduzir as aspirações, preservando as suas tradições e feitos. O Brasil fez grandes feitos em sua história. Nós não somos um país de qualquer. Nós somos um país desigual, profundamente desigual, com uma indústria que não defendemos agora, temos um sistema educacional compreensivo, um sistema de saúde compreensivo, todos com defeitos, mas eles não são restritivos. Tem que defender isso. Se isso não se der, se o caminho for o da polarização política cega, podemos marchar para uma grande confrontação social. Isso interessa a quem? Temos corporação militar capaz de bancar um novo AI-5, com todas as questões aí envolvidas: direção da economia, intervenção na questão social? Não há como. A mortalidade e a violência podem servir como um momento particular, agônico, mas cessam logo e depois tem que governar, mas governar com quem e para quem? O caminho desse centro não é fácil, nem a sua construção, nem de um eventual governo de centro, caso isso se torne uma possibilidade. Inclusive, porque há uma central no mundo hoje que conspira contra o avanço democrático das sociedades contemporâneas. Essa central tem sede, lugar e nome: é o governo Donald Trump. Enquanto ele estiver lá, eles vão continuar com essa ação interventora sobre o mundo, mas isso tem limites. Está aí a China, a Rússia, a Europa. Como se tira a China do caminho? Não tira. O que vai ser a China daqui a 30 ou 40 anos, se já é o que é agora? Temos que olhar para o mundo a partir deste ângulo, porque as coisas estão mudando na direção do favorecimento da democracia, da emergência das grandes multidões.

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